Por Arnaldo Block
Lembro-me
bem da manhã ensolarada, dois anos atrás, em que fui visitar o
Pavão-Pavãozinho, em Ipanema, que havia virado UPP. Achei interessante,
mas estranhei aquela fachada com cara de prédio residencial, o elevador
bonito, panorâmico, e o grande corredor estilo sci-fi levando a uma
porta, uma simples porta, que, ao abrir-se, dava, finalmente, para a
realidade: a favela de sempre, com suas vielas e sua miséria.
Tomava
guaraná numa birosca quando se iniciou um tumulto. Nada demais, briga
familiar, um primo louco mamado levando um “pedala”. Chamou-me atenção
um pitbull solto que resolveu não atacar ninguém, embora tenha me olhado
com desconfiança.
De lá para cá, o Rio viveu uma
euforia: outros morros libertos, choque de ordem, Copa do Mundo e
Olimpíadas no papo, pré-Sal: anunciava-se um ciclo de ouro para a
cidade, com explosão hoteleira, maquiagem das praias, Porto Maravilha,
BRTs, algo jamais visto, nem quando o Rio era capital.
Cabral
não cabia em si. Paes era só paz. Beltrame, o paladino da Justiça. Não
havia quem, impunemente, não comprasse a ideia. E quem ousasse dizer um
“ai”, pedir prudência, era tachado de inimigo, espírito de porco, na
contramão das evidências.