quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Eduardo Cunha, o nosso vilão do Batmam.

 Para ler no original acesse o site abaixo:
  http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/26/opinion/1445867337_306971.html

  A sensação é cada vez mais estranha ao se abrir os jornais, ligar a TV no noticiário ou acessar os sites de notícias da internet. Dia após dia, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) diz isso, afirma aquilo, declara aquele outro, alerta e ameaça. E nega as contas na Suíça. Tem lá sua assinatura, seu passaporte diplomático, seu endereço. Mas ele nega. O fato de negar o que a pilha de provas já demonstrou inegável é um direito de qualquer um. A maioria vai para a cadeia negando ter cometido o crime que a colocou lá. O problema são os outros verbos. Como é que tal personagem se tornou – e continua sendo – tão central na vida do país, a ponto de seguir manipulando e chantageando com as grandes questões do momento, com as votações importantes? Como Eduardo Cunha ainda diz, afirma, declara, alerta e ameaça nas manchetes dos jornais? Como o que é farsa pode ser apresentado como fato? O cotidiano do Brasil e dos brasileiros tornou-se uma experiência perversa. A de viver dia após dia uma abominação como se fosse normalidade. Essa vivência vai provocando uma sensação crescente de deslocamento e vertigem. Não se sabe o quanto isso custará para o país, objetivamente, e o quanto custará na expressão política da subjetividade. Mas custará. Porque já custa demasiado.
  Até o mais obtuso sabe que Eduardo Cunha continua no palco porque ainda tem utilidade para os projetos de poder de um lado e de outro. Entre esses dois lados que se digladiam não há oposição. Esta é outra farsa e também é por isso que se pode levar a sério um farsante como Cunha. A pauta conservadora para o país já foi estabelecida, o que se disputa é o poder de executá-la. Mas, se Cunha é apenas a expressão de uma operação política muito mais ampla, profunda e que nem começou com ele nem acabará com ele, na qual o papel do PMDB é central, ele não pode ter a importância de sua individualidade negada. Se o Brasil já teve muitos Cunhas, em vários aspectos, também não teve nenhum Cunha, em outros. Como todo vilão, o personagem é fascinante e totalmente singular.
Eduardo Cunha parece ser um perverso. Aquele que denega: vê mas finge que não viu, é mas finge que não é. Ele não seguiria ditando os dias de Brasília não fosse o homem perfeito para o papel. Para que a maioria possa fingir que disputa os rumos do país, quando disputa apenas o seu próprio, é preciso o fingidor maior, o mestre de cerimônias deste espetáculo. A sensação esquisita ao abrir o jornal ou a internet ou ligar a TV no noticiário se dá porque essa farsa pede uma adesão. A nossa adesão. É aí que (também) está a perversão.
  É evidente que Cunha não espera que alguém acredite, entre outras coisas, que ele não tem contas na Suíça, como segue afirmando sem piscar. Ele sabe que (quase) ninguém acredita nisso. Mas isso não impede que Cunha espere que possamos agir como crentes. Essa também é parte do estranhamento ao entrar em contato com o noticiário: somos convocados a uma adesão pela crença, o que, de novo, perverte a experiência da política. Cunha é o perverso que goza em nome de Jesus
  É como se, em algum nível íntimo, ele se divertisse muito com a possibilidade de transformar a realidade numa negação coletiva. Para o perverso, o outro não conta como outro. O outro – nós – é apenas o suporte para a sua satisfação. Denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro, ele fala em nome de Jesus, registra uma frota de carros de luxo numa empresa com o nome Jesus.com, discursa para os eleitores evangélicos que Deus o colocou na presidência da Câmara. Cunha é o perverso que goza em nome de Jesus.
  Neste sentido, Cunha se assemelha a um vilão do Batman: todos muito singulares, mas com o traço da perversão em comum. Só que Batman e seus vilões extraordinários são ficção. Ao produzir o deslocamento na esfera pública, Eduardo Cunha faz da farsa a realidade. Este é talvez o seu maior poder – o poder que lhe permite ainda ter poder. Abaixo da farsa maior, desenrolam-se todas as outras, como a do PSDB fingindo pedir seu afastamento, quando o apoia nos bastidores, na expectativa de que ele leve adiante o impeachment de Dilma Rousseff, ou a do Planalto também negociando com ele, mas pelo motivo contrário, para que ele não leve adiante o impedimento da presidente. Ou todos aqueles parlamentares que temem o dia em que Cunha abrir a boca para contar algumas histórias pouco edificantes que os envolvem. Para estes, é preciso manter figuras como Cunha com algo a perder. Do contrário, o país ganha, mas muitos dos atores do Congresso perdem.
Se tudo fosse encenado como uma sátira política, no teatro e não no Congresso, seria um ótimo espetáculo. A perversão é que a farsa se apresenta como realidade, e torna-se realidade. Eduardo Cunha nos corrompe a todos porque, da forma como a encenação evolui, somos parte dela. A encenação engolfa a plateia e já não sabemos onde fica a saída do teatro, porque já não há teatro. Já é a vida. Talvez por isso, para muitos, tem sido dias de vertigem.
  Simplificando. É como se, todo dia, aquele que está colocado no lugar de autoridade afirmasse: o céu é vermelho com bolinhas verdes. E a imprensa reproduzisse: fulano afirma que o céu é vermelho com bolinhas verdes. Aí há outras autoridades dizendo que não, está provado que o céu é azul e não tem bolinhas. Mas, no dia seguinte, está lá a repetição: o céu é vermelho com bolinhas verdes. E as pessoas estão lá, debaixo do céu azul, mas assistindo ou lendo as notícias não como uma comédia ou uma sátira ou uma farsa, mas como se sério fosse. E sério é. Porque a autoridade continua sendo autoridade, apesar de afirmar que o céu é vermelho com bolinhas verdes. E as demais autoridades do campo da política, mesmo as que se apresentam em polos opostos, negociam com o cara do céu vermelho com as bolinhas verdes, como se esta fosse a normalidade institucional. É impossível não ir se sentindo esquisito e duvidando da própria sanidade num mundo como este.
Ao tentar perverter a Constituição propondo um projeto que dificulta o aborto legal, Cunha reforça que é o dono da lei.
  Aí a coisa vai piorando. A cada semana vai piorando. Na passada, por exemplo. Políticos fizeram uma homenagem a Eduardo Cunha inaugurando seu retrato oficial na galeria de ex-líderes da bancada do PMDB na Câmara. O episódio é uma versão invertida de O retrato de Dorian Gray. Na obra clássica de Oscar Wilde, o retrato é escondido dos olhos do público porque vai absorvendo as marcas do tempo e dos crimes cometidos pelo personagem na vida real. Na crônica política do país, porém, o sentido é outro. O retrato exposto cristaliza a perversão: a de um homem ser homenageado, com palmas e discursos laudatórios, no momento em que está denunciado por corrupção e que as provas de contas na Suíça, possivelmente abastecidas por dinheiro público, se acumulam. A perversão é a da lei que não valeria para o retratado, ganhando o seu monumento na parede. Se o retrato de Dorian Gray precisa ser oculto porque denuncia o retratado, o de Eduardo Cunha ganha o espaço público porque o retratado, para os seus pares, está além da denúncia. É verdade que houve protestos, mas a homenagem foi realizada. E o homenageado segue como o terceiro na linha sucessória da presidência do país. O retrato do corrupto, ao ser exposto como virtude, corrompe a todos.
  Mas o retrato de Eduardo Cunha não é o episódio mais revelador da semana. É na aprovação do projeto de lei proposto por ele pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara que a anatomia da perversão se revela em sua completa amplitude. Cunha quer regular o corpo das mulheres e tenta – e está conseguindo – dificultar as possibilidades de aborto previstas por lei. Em especial, uma delas: a interrupção da gravidez resultante de estupro. Ao fazer um projeto punindo os agentes de saúde que garantirem os meios para uma mulher abortar, o que ele tenta fazer é burlar a Constituição. Quando o projeto determina que as mulheres precisam comprovar o estupro com exame de corpo de delito é a palavra da mulher que ele esvazia. Porque é exatamente isso que um perverso faz: ele esvazia o outro, neste caso as mulheres, porque o outro só existe para servir aos seus interesses. O outro não é uma pessoa, não é um sujeito de direitos, não é alguém com uma história. É apenas um meio, um corpo, um objeto submetido ao gozo do perverso.
  Vale a pena prestar atenção a este trecho do projeto de autoria de Cunha, com apoio da bancada da Bíblia: “Trata-se, ainda, de garantir a máxima efetividade às normas constitucionais, que preceituam a inviolabilidade do direito à vida. Urge, portanto, uma reforma legislativa que previna a irrupção de um sério problema de saúde pública”. Ora, o “sério problema de saúde pública” existe há muito. O aborto é a quinta causa de morte materna no país. Quem mais morre são as mulheres pobres, a maioria delas jovens e negras, que não podem pagar por uma clínica segura, como as mais ricas, nem podem contar com o Sistema Único de Saúde (SUS). Ao tentar dificultar os poucos casos cuja interrupção da gravidez é permitida, em especial o aborto em caso de estupro, e criminalizar os profissionais de saúde que dão assistência às mulheres nesta situação, o que Cunha tenta fazer é exatamente o contrário do que diz: o que ele tenta fazer é atropelar a Constituição, dificultando a aplicação da lei, e não aumentando a sua efetividade. A lei, para o perverso, não vale para ele. Ao contrário: a lei é dele e vale sobre o outro.
O moralista sem moral é o farsante que atingiu a perfeição
  Para um perverso, a relação com a lei é a do desmentido. Cunha sabe que existe a lei, mas a denega. Tudo o que rege e regula as relações humanas e entre cidadãos não o regula, já que o outro não conta como pessoa. O perverso invoca a lei, mas apenas como um fingidor. O perverso que legisla, como Cunha, faz da lei uma farsa. E goza dessa impostura. O perverso jamais goza com o outro, ele goza do outro. Mas por que Cunha transforma justamente o corpo e a vida das mulheres em objetos de sua perversão? Porque esta é a sua obra-prima, sua masterpiece: o moralista sem moral é o farsante que atingiu a perfeição.
  Em nome da moralidade religiosa, ele promove a morte das mulheres anunciando que defende a vida. Em nome de Jesus, o perverso pode ter contas na Suíça abastecidas com o dinheiro público que falta nos hospitais e pregar a imoralidade de uma mulher interromper uma gravidez resultante de um estupro. Para o perverso só há um sagrado: o seu gozo. Por isso, Eduardo Cunha pode discursar para eleitores evangélicos sobre sua ascensão à presidência da Câmara: “Deus me colocou lá! Eu sempre digo, Silas (Malafaia), se Deus me colocou lá, ele saberá sempre honrar o trabalho que ele fez!”. Assim, no discurso do perverso, não é Cunha quem honra Deus, mas Deus é quem honra Cunha. Nem o próprio Jesus ousou dizer algo assim para o povo em seus sermões bíblicos.
O mais desafiador será acompanhar até onde isso pode ir. Não há como sustentar tal surrealismo por tanto tempo mais, mas saber até onde conseguem levar será crucial para compreender o país. Porque já foi muito mais longe do que as previsões mais pessimistas. Para o destino do perverso ainda se pode contar com a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal. Em algum momento, cumprido o rito do Estado de direito, é possível que se conclua que o lugar de Eduardo Cunha não é na presidência da Câmara, mas na cadeia. Para o fim do Estado de perversão não há desfecho no horizonte.
  Os perversos em posições de poder não são exclusividade do Brasil. Na semana que passou, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, chegou ao extremo de diminuir a responsabilidade de Adolf Hitler no extermínio de seis milhões de judeus, para tentar colocar o mundo contra os palestinos. Segundo o israelense, o Holocausto teria sido ideia de um religioso palestino – e não do líder nazista. A afirmação foi rechaçada, com todas as letras, por vários políticos influentes de Israel, entre eles o presidente, Reuven Rivlin, e o líder da oposição, Isaac Herzog: não se manipularia com a História. O primeiro-ministro israelense ouviu então da chanceler alemã, Angela Merkel: “A responsabilidade pelo Holocausto é da Alemanha”. E, antes, do seu porta-voz: “Nós, alemães, conhecemos muito bem a origem do racismo criminoso do nacional-socialismo que conduziu ao Holocausto. Ensina-se nas escolas e não podemos permitir que se esqueça a responsabilidade única da Alemanha nesse crime contra a humanidade”.
  Os perversos estão por toda parte – e sempre estarão. A vertigem que sentimos diante do noticiário é que no Brasil parece não existir nenhum político de grande estatura disposto a denunciar a farsa sem tergiversar. E, assim, cumprir o dever público de assumir sua responsabilidade histórica com o país.

  Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Onde parar?

Onde vamos parar com nossa atual onda de intolerância e de radicalização?
Certo que a cena política e econômica não nos permite muitas alegrias, mas ter isto como motivo para radicalizar as relações sociais, criando grupos sempre antagônicos não é produtivo.
Até ontem, um político arrogante e falastrão aparecia como um paladino na luta contra o governo Dilma e o PT, hoje mostra-se tão pouco probo quanto aqueles a quem ataca. A oposição feita pelos demais partidos segue na linha do deixa eu me aproveitar agora para ver se consigo algo, sem qualquer respeito a população que nela votou, já que apostam na situação do quanto pior melhor, contribuindo negativamente para nosso crescimento político, intelectual e social.
O governo, que não sabe como se desatolar do buraco onde se meteu, segue com os mesmos erros do toma lá dá cá espúrio e improdutivo, atacando a si próprio e permitindo que aquilo que fez de bom se transforme em nada.
O Brasil foi construído sobre muitas chagas e incoerências, vive desde tempos imemoriais mergulhado em uma violência sistemática e continua que nos chega até os dias de hoje. Mas também foi construído pela presença de diversas raças e opiniões, que se juntaram e se misturaram para viverem juntas de uma forma mais fácil como em poucos lugares se vê.
Não podemos deixar que a insensatez  dos nossos políticos nos contamine e nos leve a atos insanos, precisamos ver com olhos mais calmos tudo o que ocorre e apoiar aquilo que pode mudar nossa sociedade: a  ação dentro da lei por parte dos órgãos de investigação, a aplicação das regras da justiça pelo judiciário de forma independente e equânime, a presença do contraditório como parte da democracia, a valorização da democracia e devemos fugir rápido das falsas promessas daqueles radicais que sopram palavras de intransigência como sendo a forma de se levar a vida para adiante, pois, estes, normalmente, só pensam em si.
As reais mudanças não ocorrem pelo simples esgarçar da situação vigente, mas pela maturidade dos processos, pela presença de uma democracia apoiada na legalidade e pela ação civilizada dos cidadãos.

domingo, 28 de julho de 2013

Discurso do Papa Francisco no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (27 de julho de 2013).

Excelências,
Senhoras e Senhores!
Agradeço a Deus pela possibilidade de me encontrar com tão respeitável representação dos responsáveis políticos e diplomáticos, culturais e religiosos, acadêmicos e empresariais deste Brasil imenso. Saúdo cordialmente a todos e lhes expresso o meu reconhecimento.
Queria lhes falar usando a bela língua portuguesa de vocês mas, para poder me expressar melhor manifestando o que trago no coração, prefiro falar em castelhano. Peço-vos a cortesia de me perdoar!
Agradeço as amáveis palavras de boas vindas e de apresentação de Dom Orani e do jovem Walmyr Júnior. Nas senhoras e nos senhores, vejo a memória e a esperança: a memória do caminho e da consciência da sua Pátria e a esperança que esta, sempre aberta à luz que irradia do Evangelho de Jesus Cristo, possa continuar a desenvolver-se no pleno respeito dos princípios éticos fundados na dignidade transcendente da pessoa.
Todos aqueles que possuem um papel de responsabilidade, em uma Nação, são chamados a enfrentar o futuro "com os olhos calmos de quem sabe ver a verdade", como dizia o pensador brasileiro Alceu Amoroso Lima ["Nosso tempo", in: A vida sobrenatural e o mundo moderno (Rio de Janeiro 1956), 106]. Queria considerar três aspectos deste olhar calmo, sereno e sábio: primeiro, a originalidade de uma tradição cultural; segundo, a responsabilidade solidária para construir o futuro; e terceiro, o diálogo construtivo para encarar o presente.
1. É importante, antes de tudo, valorizar a originalidade dinâmica que caracteriza a cultura brasileira, com a sua extraordinária capacidade para integrar elementos diversos. O sentir comum de um povo, as bases do seu pensamento e da sua criatividade, os princípios fundamentais da sua vida, os critérios de juízo sobre as prioridades, sobre as normas de ação, assentam numa visão integral da pessoa humana. Esta visão do homem e da vida, tal como a fez própria o povo brasileiro, muito recebeu da seiva do Evangelho através da Igreja Católica: primeiramente a fé em Jesus Cristo, no amor de Deus e a fraternidade com o próximo. Mas a riqueza desta seiva deve ser plenamente valorizada! Ela pode fecundar um processo cultural fiel à identidade brasileira e construtor de um futuro melhor para todos. Assim se expressou o amado Papa Bento XVI, no discurso de abertura da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Aparecida.
Fazer que a humanização integral e a cultura do encontro e do relacionamento cresçam é o modo cristão de promover o bem comum, a felicidade de viver. E aqui convergem a fé e a razão, a dimensão religiosa com os diversos aspectos da cultura humana: arte, ciência, trabalho, literatura... O cristianismo une transcendência e encarnação; sempre revitaliza o pensamento e a vida, frente a desilusão e o desencanto que invadem os corações e saltam para a rua.
2. O segundo elemento que queria tocar é a responsabilidade social. Esta exige um certo tipo de paradigma cultural e, consequentemente, de política. Somos responsáveis pela formação de novas gerações, capacitadas na economia e na política, e firmes nos valores éticos. O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e erradicando a pobreza. Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a seguir. Já no tempo do profeta Amós era muito forte a advertência de Deus: «Eles vendem o justo por dinheiro, o indigente, por um par de sandálias; esmagam a cabeça dos fracos no pó da terra e tornam a vida dos oprimidos impossível» (Am 2, 6-7). Os gritos por justiça continuam ainda hoje.
Quem detém uma função de guia deve ter objetivos muito concretos, e buscar os meios específicos para consegui-los. Pode haver, porém, o perigo da desilusão, da amargura, da indiferença, quando as aspirações não se cumprem. A virtude dinâmica da esperança incentiva a ir sempre mais longe, a empregar todas as energias e capacidades a favor das pessoas para quem se trabalha, aceitando os resultados e criando condições para descobrir novos caminhos, dando-se mesmo sem ver resultados, mas mantendo viva a esperança.
A liderança sabe escolher a mais justa entre as opções, após tê-las considerado, partindo da própria responsabilidade e do interesse pelo bem comum; esta é a forma para chegar ao centro dos males de uma sociedade e vencê-los com a ousadia de ações corajosas e livres. No exercício da nossa responsabilidade, sempre limitada, é importante abarcar o todo da realidade, observando, medindo, avaliando, para tomar decisões na hora presente, mas estendendo o olhar para o futuro, refletindo sobre as consequências de tais decisões. Quem atua responsavelmente, submete a própria ação aos direitos dos outros e ao juízo de Deus. Este sentido ético aparece, nos nossos dias, como um desafio histórico sem precedentes. Além da racionalidade científica e técnica, na atual situação, impõe-se o vínculo moral com uma responsabilidade social e profundamente solidária.
3. Para completar o "olhar" que me propus, além do humanismo integral, que respeite a cultura original, e da responsabilidade solidária, termino indicando o que tenho como fundamental para enfrentar o presente: o diálogo construtivo. Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. O diálogo entre as gerações, o diálogo com o povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade. Um país cresce, quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais: cultura popular, cultura universitária, cultura juvenil, cultura artística e tecnológica, cultura econômica e cultura familiar e cultura da mídia. É impossível imaginar um futuro para a sociedade, sem uma vigorosa contribuição das energias morais numa democracia que evite o risco de ficar fechada na pura lógica da representação dos interesses constituídos. Será fundamental a contribuição das grandes tradições religiosas, que desempenham um papel fecundo de fermento da vida social e de animação da democracia. Favorável à pacífica convivência entre religiões diversas é a laicidade do Estado que, sem assumir como própria qualquer posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade, favorecendo as suas expressões concretas.
Quando os líderes dos diferentes setores me pedem um conselho, a minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo. A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. O outro tem sempre algo para nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Só assim pode crescer o bom entendimento entre as culturas e as religiões, a estima de umas pelas outras livre de suposições gratuitas e no respeito pelos direitos de cada uma. Hoje, ou se aposta na cultura do encontro, ou todos perdem; percorrer a estrada justa torna o caminho fecundo e seguro.
Excelências,
Senhoras e Senhores!
Agradeço-lhes pela atenção. Acolham estas palavras como expressão da minha solicitude de Pastor da Igreja e do amor que nutro pelo povo brasileiro. A fraternidade entre os homens e a colaboração para construir uma sociedade mais justa não constituem uma utopia, mas são o resultado de um esforço harmônico de todos em favor do bem comum. Encorajo os senhores no seu empenho em favor do bem comum, que exige da parte de todos sabedoria, prudência e generosidade.
Confio-lhes ao Pai do Céu, pedindo-lhe, por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, que cumule de seus dons a cada um dos presentes, suas respectivas famílias e comunidades humanas de trabalho e, de coração, a todos concedo a minha Bênção.


sábado, 27 de julho de 2013

A máscara do Rio precisa cair

 Por Arnaldo Block

Lembro-me bem da manhã ensolarada, dois anos atrás, em que fui visitar o Pavão-Pavãozinho, em Ipanema, que havia virado UPP. Achei interessante, mas estranhei aquela fachada com cara de prédio residencial, o elevador bonito, panorâmico, e o grande corredor estilo sci-fi levando a uma porta, uma simples porta, que, ao abrir-se, dava, finalmente, para a realidade: a favela de sempre, com suas vielas e sua miséria.
Tomava guaraná numa birosca quando se iniciou um tumulto. Nada demais, briga familiar, um primo louco mamado levando um “pedala”. Chamou-me atenção um pitbull solto que resolveu não atacar ninguém, embora tenha me olhado com desconfiança.
De lá para cá, o Rio viveu uma euforia: outros morros libertos, choque de ordem, Copa do Mundo e Olimpíadas no papo, pré-Sal: anunciava-se um ciclo de ouro para a cidade, com explosão hoteleira, maquiagem das praias, Porto Maravilha, BRTs, algo jamais visto, nem quando o Rio era capital.
Cabral não cabia em si. Paes era só paz. Beltrame, o paladino da Justiça. Não havia quem, impunemente, não comprasse a ideia. E quem ousasse dizer um “ai”, pedir prudência, era tachado de inimigo, espírito de porco, na contramão das evidências.

sábado, 29 de junho de 2013

Rio de Janeiro: protestos V

Amanhã, como não pode deixar de ser, deve acontecer uma nova manifestação PACÍFICA nas proximidades do Maracanã.
A concentração está marcada para às 10 horas, na Praça Saens Pena, na Tijuca e a organização pede que se evite afrontas e provocações. A questão é reivindicar e conquistar nossos direitos e não destruir o pouco que temos.
Espero honestamente que seja pacífica e que se algum paspalho aparecer com ideia de tocar horror, que ele seja rapidamente identificado e devidamente enquadrado.
Espero ainda que nossas autoridades tenham revisto a forma de conduta da nossa polícia e que os treinamentos que foram tão alardeados nos jornais e TVs ao longo dos últimos anos de fato sirvam para alguma coisa.
Para estes últimos, deixo o vídeo abaixo como um pedido.

Rio de Janeiro: protesto DELL

Protesto aqui e alerto a qualquer cidadão: não compre computador na DELL.
As máquinas são boas, mas não melhores do que a concorrência, porém o suporte técnico e a forma como a empresa DELL atende a um proprietário pessoa física de um produto seu é simplesmente insultante, vergonhosa e descabida.
Para começo de conversa a DELL não possui um SAC, simplesmente você não tem como concretamente dirigir sua queixa ou sugestão, restando apenas

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Rio de Janeiro: protestos IV

Ver nos jornais da noite que a população da favela da Rocinha junto com moradores da favela do Vidigal fizeram uma manifestação, precedida de passeata, na porta da casa do governador do Rio de Janeiro sem qualquer problema, é para mim uma grande alegria.
Melhor ainda é ver pessoas da comunidade solicitarem

sábado, 22 de junho de 2013

Rio de Janeiro: protestos III

Um chute nos serviços públicos de má qualidade

O Rio de Paz mais uma vez comprovou que é possível fazer manifestações de modo pacífico. Levou às areias de Copacabana 500 bolas pintadas com uma pequena cruz vermelha representando

Rio de Janeiro: protestos II

O Rio de Janeiro vinha vivendo uma falsa euforia que parece abalada com os protestos desta semana.
Com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora em algumas comunidades da cidade, especificamente as comunidades que ficam no entorno ou próximo aos locais dos futuros eventos na cidade e a consequente diminuição da violência diretamente ligada ao tráfico de drogas, vendeu-se a ideia de que todos os problemas

Rio de Janeiro:protestos

O que vejo no Rio de Janeiro hoje muito me alegra.
Já era a hora de mostramos nossa tão falada indignação de forma clara para aqueles que ocupam os cargos de gestores da nossa cidade.
O Rio dos últimos anos se transformou em um palco de oportunidades para poucos ganharem muito sem dar satisfação a quase ninguém.
Me alegra ver as pessoas comuns desta cidade  constrangerem do governador viajador e seus secretários de lenço na cabeça nas ruas de Paris a empresários como o senhor Cavendish que "desapareceu" estrategicamente , pois juntos eles são responsáveis pela reforma